A Yoki não precisa inventar conexão com São João. Já vende os ingredientes da tradição: pipoca, canjica, milho, temperos.
Segundo Fabiola Menezes, CMO de Yoki e Kitano, a pipoca chega a dobrar em vendas entre maio e julho. A canjica triplica sua performance no mesmo período. Em temperos como cravo e canela, o crescimento chega a 150%.
A marca também conectou o período junino ao calendário da Copa do Mundo, lançando produtos para ocasiões de consumo compartilhado, como pipoca de micro-ondas sabor churrasco.
A lição aqui: quando você já tem conexão natural com a data, o trabalho é reforçar essa conexão todo ano, e procurar novos cruzamentos com outros momentos do calendário.
A Natura não tem nenhuma relação natural com comida típica de São João. Mesmo assim relançou, neste ano, uma linha inspirada na maçã do amor: fragrâncias com notas gourmand que remetem ao doce.
Segundo Julia Ceschin, head global de brand experience da Natura e Avon, a marca observa uma valorização crescente de experiências sensoriais e produtos que dialogam com o imaginário junino, como fragrâncias gourmand e itens que despertam memórias afetivas.
A Salon Line fez movimento parecido, mas com penteados. A marca virou a perfumação e os cabelos de festa em conteúdo de comunidade nas redes sociais, com consumidoras trocando looks e se inspirando umas nas outras.
A lição aqui: você não precisa ser literalmente do nicho da data para se conectar com ela. Precisa identificar qual sensação ou memória a data ativa, e traduzir isso para o seu produto.
A Reserva é loja de roupa masculina. Não tinha histórico de presença forte em São João.
A marca apostou no cantor João Gomes como embaixador desde 2025, e fez dele o rosto da campanha de São João deste ano, ao lado da cantora Ary Mirelle. A campanha levou ativações a quatro capitais: Fortaleza, Salvador, Recife e São Paulo.
O resultado apareceu rápido. Segundo Joana Bittencourt, diretora executiva da Reserva, Pernambuco registrou crescimento de 48% em vendas no mês de estreia da campanha. Goiás cresceu 22%. Bahia, 21%, empatada com São Paulo.
“O São João fala sobre encontro, memória, música e pertencimento, e faz muito sentido traduzir essa narrativa ao lado do João e da Ary, um casal real, com uma troca verdadeira”, afirma Bittencourt.
A marca também mantém territórios fixos dentro da data, como a Barraca do Beijo e o Correio do Amor, ações que já fazem parte do vocabulário afetivo da Reserva há anos.
A lição aqui: a Reserva não tinha história de São João. Construiu uma, escolhendo a pessoa certa para contar essa história por ela, e repetindo essa presença ano após ano até virar identidade reconhecível.
Yoki, Natura e Reserva partiram de pontos completamente diferentes. Uma já era dona natural da data. Outra traduziu memória em produto. A terceira construiu uma conexão que não existia.
Mas nenhuma das três tratou São João como decoração de uma semana. Todas entenderam a data como território de construção de marca, que se repete e se aprofunda ano após ano.
E isso muda completamente o resultado.
Você não precisa do orçamento de uma Natura ou de uma Reserva para aplicar a mesma lógica. Precisa de intenção e repetição.
Crie um doce com nome próprio que volta todo ano.
Em vez de chamar de “doce de festa junina”, dê um nome que vire tradição da sua marca. Pode ser uma homenagem, uma história pessoal, um apelido carinhoso. O importante é que esse nome se repita todo ano, até que as clientes esperem por ele.
Venda o cheiro, não só a imagem.
A Natura transformou a memória da maçã do amor em perfume. Você pode fazer o caminho inverso: usar palavras que ativam memória sensorial nas suas legendas. Fale do aroma da canela, da fogueira, do friozinho de junho. Isso conecta antes mesmo do cliente provar o doce.
Conte a sua origem real, se ela existir.
Se você cresceu comendo canjica em festa de rua, ou paçoca de quermesse de igreja, isso é conteúdo genuíno. Memória pessoal verdadeira vende mais do que qualquer banco de imagem genérico de bandeirinha colorida.
Repita a mesma idéia todo ano, com pequenos ajustes.
A Reserva não reinventou a roda a cada campanha. Manteve a Barraca do Beijo, manteve o Correio do Amor, e foi aprofundando a presença com João Gomes ano após ano. Se você criar uma ação ou um produto que funcione, repita no ano seguinte. É a repetição que transforma uma ideia em identidade.
Qualquer confeiteira consegue colocar bandeirinha na vitrine em junho. Isso não constrói nada além de uma semana de venda sazonal.
O que separa quem compete só em preço de quem vira referência é a decisão de tratar a data como território de marca, não como evento isolado.
Festas juninas vão voltar todo ano. A pergunta é: o que você vai construir esse ano que ainda vai estar de pé no próximo?
Fontes: Meio e Mensagem, Movimento Econômico, Ministério do Turismo / junho 2026
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